16.5.09

Nem

"Eu sai de sarongue. Mas que calor, mas que calor, mas que calor. Cantei no bonde de..." de? Diós, no Rio... no Rio, o bairro. É bairro de time de futebol. Nome de Santo. "Tia, me dá um dinheiro?" Um menino esmirrado, a cara suja, roupa velha, quase escorria no canto da rua, apoiado no muro cinza. "Não tenho, querido". Ele parecia um fiapo. Sim, um fiapo. Não era gente. Não podia ser. Não daquele jeito. "É pra comida, tia!". Ele insistia, a mãozinha suja, estirada à frente. Fosse maior, poderia ser uma cancela de miséria: dá uma moedinha e a cancela se abre. Não paga, ela fica ali, impedindo a passagem. Você tenta se esgueirar da cancela. "Cantei no bonde de São...". Mas ela nunca se abre. E a música... o bairro, qual era mesmo? "Tia, só uma moedinha". "Não tenho, filho", agora já sentiam uma certa raiva. Os dois. O menino prostrado invocava por não ter moeda. Ela já se constrangia e o constrangimento era mais que incômodo. Era impaciência. "Olha, não tenho. Mesmo. Quer uma bala?". Bala. Era só isso o que tinha no bolso do casaco. Uma bala de hortelã que aceitou de troco, a contra-gosto, na padaria no dia anterior. A bala e as chaves. "Bala o caralho, tia, eu quero dinheiro". Ela corou com o atrevimento do menino. Com o passo firme e algum pesar, desviou da mãozinha suja e foi embora. Ao fundo ainda ouvia "vadia, mas que merda, era só uma moeda"... ele falou vadia? Ou era tia e entendeu errado? Vadia? "Jogaram pó de mico mas não fiquei jururu". Enfim, não ia se importar com uma criança a chamando de vadia por causa de uma moeda que não tinha. Ou ia? O bairro? Qual era mesmo? O celular... o celular estava vibrando no bolso. Tinha uma bala de hortelã, as chaves de casa e um celular. "Quem encontrar o meu moreno por aí". Alô? Ele de novo. Ele sempre. Sempre que tinha tempo o suficiente pra nunca mais lembrar de sua existência. "Estou na rua. Te ligo quando chegar em casa pode ser?". Mentira. Ela não ia ligar. Não suportava. Estava a menos de três minutos da porta da sua casa. "Mas não fiquei jururu. Continuei me exibindo me desmilinguindo no passo do canguru". Ia ser forte. Dessa vez não ia mais. Ele que casasse, que morresse, que sumisse, que... Pegou as chaves. Abriu a porta. À frente,bem à frente, o telefone. Mas dessa vez, ele que esperasse que ela ia mostrar quem é que mandava. "Eu sai de sarongue. Mas que calor, mas que calor, mas que calor. Cantei no bonde de São Januário. Ala-la-ô, ala-lá-ô, Alá-lá-ô". Era São Januário... Vasco da Gama. Como não lembrou antes? Sentiu aquele alívio que se sente quando algo volta à cabeça. Quase ficou feliz. E sem querer, pegou o telefone...

[Mas façam-me o obséquio, boca de siri!]


3 comentários:

007 project disse...

ok, ok. abusei um pouco no tamanho do post. o editor saiu de férias.

Marcus Xavier disse...

cadê a vaca?

e desde quando essa maldita dessa Carta Capital sua apóia a extradição do Battisti?

ieu, heim.

Ana Vizeu disse...

eu li o post na outra semana, e achei tão lindo.

não acabei mas mas como deve demorar...

http://www.flickr.com/photos/cup_of_coffee/3568314389/

beijo!