28.11.08

08, hasta la vista, baby

[Escrever é reviver. Retrospectemos 08]

Mas antes deste ano acabar, eu ainda faço uma fezinha na loteria. Porque se o dito popular é certo, PQP, mas estamos em ano de sorte no jogo. Temos de aproveitar.

Roubei este coração perto da Folha de S. Paulo; um lixão enorme, sempre ao pé dele, me fascina, mas desenquadrei-o da foto por ser muito pessoal

Aliás, 2008 não foi um ano, foi uma odisséia. Se alguém me perguntar como isso tudo começou, não me lembro. E se há crise dos 25 anos, a minha veio aos 24, certamente.

Do contrário, nenhuma pessoa em sã consciência teria um "surto de fim". Fim da estadia na cidade, do trabalho, do namoro. Tudo de uma só vez, no mesmo mês. Se isso não é crise, baby, juro!, não quero saber o que é. Tampouco saber qual será a dos 25 anos.

Fato é: cai em Sampa, plano antigo, mas que acho que às vezes eu mesma duvidava que pusesse em prática. Lembro bem: sai de BH em chuva em pleno inverno. Cidade idiota. Nunca chove por lá no começo de agosto. À exceção do dia em que vim embora, em um Cometa e com uma chuva torrencial. E eu, lendo uma maldita mensagem no meu celular, chorava mais que a chuva. Sorte que era dia de semana, durante o dia e ninguém viaja nesse horário. O conforto do ônibus vazio é saber que a cadeira é só sua. E sua intimidade também.

Oito horas depois, já sem choro, estava aqui. Entre satisfeita, apavorada, feliz e sozinha. Quatro meses depois, acho que continuo assim.

Findadas emoções da partida, emoções da chegada. De novo, Rachel, hora de refazer-se em algum lugar. Estava com saudades, confesso. Mudar sempre é uma chance de tentar consertar aquilo que você não era. Mas também é sempre chance de errar de novo. Isso gera: TENSÃO.

E tensão te deixa satisfeita, apavorada, feliz e sozinha. Ou outras variações do mesmo tema.

Por fim, chego ao fim de novembro ainda trabalhando em um grande jornal – bom, acho que era algo parecido com isso que vim buscar aqui – em uma função que defini, carinhosamente, como de putinha jornalista [não, não. Antes que alguém pense isso, não dei pro chefe. Refiro-me a ter ido cobrir bares no Guia].

Acontece que transformei o prazer em profissão. Ou seja: o gozo nunca mais será o mesmo. [Obrigue-se a ir ao bar e verá!]

[Um trecho deste post foi auto-censurado após gerar comentários variados extra-blog. Quem leu, leu; quem não leu, não lê mais!]

But, life is [not/ not always] good. 2009 é ano ímpar e vem aí para redimir-nos [ou reduzir-nos? Nunca se sabe]. Gosto deles, anos ímpares, sempre mais. Tudo que é impar é mais legítimo. Essa obviedade das coisas pares cansa. O par tem uma certitude insuportável.

Por isso resolvi: o mundo que me desculpe, mas meu calendário 2008 se encerra dia 30 de novembro [ou seja: amanhã é dia de réveillon pessoal!!! êêê].

Para não acusarem de falsa anarquia ou pseudo-revelia, inicio 2009 junto com todos, 1º de janeiro. Até lá, estamos em período de latência [im]produtiva.

Não vou desejar o mal para os outros porque não é do meu feitio, mas deixo de sobreaviso: mexe comigo até 2009, pra você ver!

TOP 8 # 08

# Música: não sou Malu Magalhães, mas Camelo ganhou minha música do ano, com os versinhos "Posso estar só / Mas, sou de todo mundo / Por eu ser só um / Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!"

# Descoberta: sebinho de revistas antigas na São João, donde adquiri minha primeira revista da década de 10!

# Cor do ano: Havana, by Risque [para Tadeuzito, que anda guardando nomes de esmalte sabe-se lá pra que]

# Blog: definitivamente, FAQ de Mulherzinha [que vai estar melhorando pra 2009, né Rubinha?], sempre disponível, no www.faqdemulherzinha.blogspot.com

# Réveillon: 2005/2006

# Livro: primeiras páginas de "Uma temporada no inferno". Tão boas que não consegui ler o resto do livro até hoje

# Filme: Win Wenders e aprendendo, disse o trocadilho infame de um jornalista igualmente infame. Em homenagem, elejo "Asas do Desejo" o filme do meu ano. Mais que outros lançados em 2008 [já disse isso antes neste blog, não?]

# Revelação: o Camelo é o lobo-mau [agora só falta saber que o Amarante é o Papai Noel... ah! mas aquela barbichinha nunca me enganou!]

[madrugada de sexta pra sábado, eu ouvindo "Doce Solidão" repetidas vezes. O vizinho queimando um misto sem cessar. Mas o convívio social é mesmo uma merda]

26.11.08

New life

[De nova função no trabalho, resolvemos treinar expressões da moda e linguagem "fofinha" em uma resenha breve de casa]

# O LOCAL

O espaço é pequeno e acolhedor. Desde que foi reinaugurado no final de outubro, sob nova direção, houve alterações na decoração. Exemplo são os vasinhos de ervas aromáticas que agora adornam o móvel de madeira escura à entrada. A casa está aberta de segunda a domingo, sendo necessário fazer reserva. A hospedagem inclui café-da-manhã [nem que seja na padaria] e, aos fins-de-semana, almoço.

# PARA COMER

O cardápio varia de acordo com o dia da semana. Come-se de fettuccine ao molho de shimeji a uma simples sopa Vono sabor mandioquinha. Quando a proprietária retorna de sua terra natal, Minas Gerais, é possível encontrar deliciosos queijos canastra e doce de leite, exemplares típicos da culinária mineira trazidos do Mercado Central de Belo Horizonte.

# PARA BEBER

Com opções variadas de cerveja, a casa oferece desde as tradicionais Bohemia e Bavaria Extra, conhecidas do público brasileiro, a opções estrangeiras como a australiana Coopers Brewery. Como a oferta é irregular – as opções variam de semana a semana –, aconselha-se sempre consultar o cardápio antes de ir ao local [ou levar sua própria cerveja]. Outra pedida é o mojito, feito com hortelã cultivado na própria casa.

# DIVERSÃO

Algumas vezes por mês, o espaço promove seção de cinema com pipoca e cerveja. O convite é feito pelo mailing da casa e só freqüentadores vip são convidados.

# PASSEIO

Três vezes por semana são realizados tours pelo Parque Buenos Aires, equipamento público de lazer próximo e que oferece playground, pista de cooper e passeio para cães. Em dias de visita ao parque, a dica é a água de côco na entrada do local.

# MÚSICA

Sem uma linha definida, a casa mescla MPB e Bossa Nova com rock indie e samba. Os rits seguem o gosto da proprietária, responsável pelos set lists que animam a noite. Como aqui tudo é negociável, o habitué também pode comandar as pick-ups.

19.11.08

Como um menininho feio

1. A obra 2. A fila 3. O funcionamento

Acontece às vezes de aparecer um carinha que é bom de papo, é inteligente, rende assunto, mas que é feio feito o cão. Esse é aquele momento em que sempre descubro que não sou um ser humano evoluído.

Sim, aparências me enganam e me agradam.

A Bienal do Vazio é um carinha feio. Bem feio. Que se vale de uma promessa política e não-estética. Ela até agrada, mas não engana.

Fui em um horário sem intervenções marcadas. Queria ver o vazio. Não vi.

No salão branco e sem exposições, uma circulação intensa de gente e uma fila enorme para um tobogã-arte. Um espetáculo a parte era dado pelas crianças, principalmente um grupo que jogava bola por ali [decerto em um ato político de contestar os valores aprisionadores das paredes em nossa sociedade, pois, do contrário, não fosse manifestação, elas bem poderiam estar no gramado do Ibirapuera, certamente mais confortável para a prática esportiva].

No piso superior, as instalações de compensado me causaram a sensação de que estava no meio de uma construção. E detesto construções. Passei vinte anos da minha vida vendo um prédio ser construído. Morei dentro dele antes dele estar pronto. Estava lá quando o apartamento estava sendo terminado. Vi piso, contra-piso, emassarem a parede, colocarem pia.

Daí, imaginem, fugi dali como se foge de um parque de horrores.

4. O [nem tão] vazio


Com o pouco de vazio [do meu vazio, aquele que tinha saído de casa com ele] que me sobrou após a ida à Bienal, resolvi dar uma volta pelo Ibirapuera.

Era sábado, era sol e era Virada Esportiva[1].

O parque, inevitavelmente cheio, congestionava-se nos gramados.

Pela Virada, eventos obtusos se espalhavam: de um lado, pessoas afoitas corriam atrás de mini-bolas de basquete. Mais à frente, um grupo esfuziante jogava as pernas ao alto, dando chutinhos no ar, ao som de "Fada"[2].

Um pouco atordoada, quase fui atropelada por um cara de patins.

Descobri que era melhor voltar pra casa. Pegar a matéria que saiu na CartaCapital e ir pensar na Bienal daquela distância confortável e segura do sofá da sala para a realidade.


[1] Evento pouquíssimo empolgante do também nada empolgante Kassabinho.

[2] Música apavorante de uma dupla sertaneja de sucesso – Victor e Léo, dizem.

15.11.08

Passa o ferro!

Déja vu. A familiaridade com algo é boa, é fato. Enche a gente de uma certeza incrível de que aquilo não lhe oferece risco e, mesmo que ofereça, os riscos são aqueles aos quais você já está plenamente disposto a se expor.

Reconfortante, eu diria.

E foi movida por esse sentimento que, vagueando pela Tok Stok, encontrei algo terrivelmente familiar. A prateleira enfileirava várias opções, marcas, cores, tecnologias, mas foi inevitável cair os olhos sobre ele. Não era o mais moderno, nem o mais bonito.

Mas ele me era familiar. Não é todos os dias que a gente encontra um pedaço da infância assim, exposto na prateleira de uma loja de rede. Se nem em parques esses restos de infância costumam estar, imagine ali, em uma loja asséptica e bem organizada de Higienópolis.

Quando o vi, parei. Não podia simplesmente puxá-lo assim, como se fosse qualquer um outro. Não era. Parei. Olhei tanto pra ele... acho que pensei que ele também fosse olhar pra mim.

Depois de alguns minutos hesitando... exitei. Peguei-o nas mãos. Virei-o e revirei-o. Senti, lá no fundo, uma saudade grande de alguma coisa incerta (que a gente não precisa ter certeza desses sentimentos).

Não foi preciso muito tempo para correr em direção ao caixa com aquela felicidade enorme de quem encontra algo que nem sabia que estava procurando.

De volta à casa, abri a caixa e coloquei ele ali, em cima da cama, pra ter certeza de que ele agora era meu.

Era.

E desde terça-feira, o black&decker-VFA/1110 mora aqui comigo, no armário do meu quarto.

Ele me diz que tem a maior base do mercado. Eu acredito.

Ele me diz que é o mais quente. Eu acredito.

Tudo isso porque ferros de passar nunca mentem a crianças.

Este é ele, descansando após um dia de trabalho


12.11.08

A falsa esperança de sempre

[Prefácio]

A problemas políticos e econômicos, uma resposta publicitária

[1]

Em 2002, um país também americano se esbaldava em esperança ao eleger um metalúrgico.

Em 2008, vindo do mesmo continente, vemos o mesmo sentimento espalhando-se em níveis globais. Dessa vez, eleito um negro.

E quem é o negro? E quem é o metalúrgico?

Inevitável voltar àquelas fatídicas aulas de Biologia [minha sempre mais odiosa matéria escolar]. Especificamente, àquela que falava da produção da vacina.

Um pouquinho de agente infeccioso é neutralizado e vira remédio.

Lula é vacina.

Obama é vacina.

Lula só ganhou depois de mudar o discurso, mudar a aparência, mudar a base...

Obama nunca se posicionou como um político negro para os negros. Diz-se um político para todos [pena que todos, no nosso mundo, sempre sejam bem poucos].

Pode haver um quê de exagero pessoal, mas a esperança de ambos é mais uma esperança de manutenção do sistema do que de mudança.

E isso tudo faz muito bem.

Políticos, polidos, carismáticos, populares.

Gente assim faz boas capas de revista em fotos grandes como as esperanças. Mas mudança, em si, não carregam [mais].


[2]

Em uma piauí desordeira [nº26, nov.08], um certo Walter Benn Michaels desafia a moral do mundo contemporâneo escrachando o debate sobre racismo e machismo. Diz ele que o maior problema que temos diante de nós, a desigualdade, não é fruto nem de um nem de outro.

Gostei. Debate perigoso. Isso dito por aí pode lhe render uma falsa alcunha de fascista em um piscar de olhos.

Mas o homem tá certo. Recomendo a leitura [aos sovinas, o aviso de que o texto não está aberto no site. Coisas do capital].

"Na utopia neoliberal que a campanha de Obama corporifica, os negros deveriam ser 13% dos (numerosos) pobres, e 13% dos (bem menos numerosos) ricos; as mulheres, 50% de ambos. Para os neoliberais, o que torna isso uma utopia é que a discriminação não desempenharia nenhum outro papel na administração da desigualdade. O que faz com que a utopia seja neoliberal é que a desigualdade permaneceria intacta."


[3]

Desde que os movimentos sociais tomaram corpo via ONGs, temos o péssimo hábito de discutir sociedade com a leviandade com que se discute a novela e com a falta de argumento com que se defende o time de futebol.

Quebrou-se o mundo com a felicidade pungente com que se quebram espelhos para se fragmentar a imagem. Cada ONG levou seu caquinho de espelho pra casa e foi lá cuidar dele com seus 200 mil conquistados via governo ou via grande empresa.

Um Michaels da vida joga na nossa cara que a desigualdade continua aí. Que é ela quem fode a população.

E a gente volta pra casa, compra uma camisa do Greenpeace e dorme feliz.

Viva a felicidade adquirível do capitalismo!

Hay dinero? No hay problemas.


[4]

Enfim e por fim, todo este post existe pra que você não ouse falar por aí que estamos comprando gatos por lebre só pra apaziguar nervos.

Não diga que Lula ficou aquém.

Não cogite que Obama não irá além.

Não reflita sobre o modo quase pueril com que temos lidado com os problemas do mundo.

E, o mais importante, creia no capitalismo [todos os dias].

10.11.08

De volta a algum mundo

[depois de tanto tempo, é tanta coisa que não sei por onde começar]

—pelo fim—

"Porque homens espertos são aqueles que se mostram frágeis sem serem frescos."

Esse pensamento me invadiu hoje, na hora do almoço, ao lembrar-me de certos olhos tristes masculinos. Não faço idéia das motivações dele para a tristeza, mas me comoveu sem frescuras.

—no sábado e no domingo—

Desordem cronológica pós-plantão. Idéias censuráveis em lugares públicos. Comportamentos desordeiros em lugares privados.

—na sexta—

Uma idéia obtusa de ficar em casa vendo filmes. Peguei "Asas do desejo" e nunca um filme me fez tanto sentido [pessoal]

—na quinta—

Em algum momento cheguei em casa para uma pauta na sexta. Era Heliópolis, era gente e lembrei que há vida fora das redações.

—na terça e na quarta—

Despedidas de gente que não conheço. Sofre-se pouco nesses momentos, mas bebe-se o mesmo pelo pretexto.

—na segunda—

Tropecei em alguém a caminho do banheiro, ou da padaria [ou nos dois]. Em momentos de fúria, tropece em alguém que lhe sorri, foi a lição do meu dia.

—de terça a domingo—

Meu melhor amigo, uma embalagem de cloro. Antes de se mudar, certifique-se se o ex-morador mantinha o local em boas condições de higiene e limpeza. Poupa dores musculares.

—no começo—

Uma idéia libertadora de morar só. Ou de estar só.